FIADEIRA USA PÊLOS DE CÃES E DE GATOS NOS SEUS TRABALHOS

 

NO ALGARVE

Por que não um cachecol de pastor-alemão ou uma camisola de gato persa?

por Idálio Revez

A velha arte de cardar e fiar lã de ovelha churra algarvia foi retomada, em São Brás de Alportel, pela alemã Gudrun Robinson, que descobriu ainda outros materiais bem menos tradicionais com que fabricar peças de roupa: também fia e trabalha pêlos de gato e de cão.

"Naturalmente, se o animal estiver bem lavado facilita o trabalho", comenta. Do pastor alemão ao Cão de Água, passando pelo gato persa, qualquer um destes animais "tem pêlo que dê para uma boa camisola ou cachecol". Desta forma, o afecto das pessoas pelos animais pode também traduzir-se no uso de uma peça de vestuário. A fiadeira recorda-se de uma cliente ter guardado durante cinco anos os pêlos de dois pastores alemães "para fazer uma manta".

Depois de ter trabalhado como secretária na Escócia, onde viveu durante uma década, Gudrun Robinson radicou-se há 14 anos no Algarve. Regressar á Alemanha? "Nem pensar".

Com imaginação e arte, Gudrun deu a volta aos fios e pôs-se a fazer tapetes e tapeçarias que fazem a cobiça de muitos dos seus conterrâneos e também dos algarvios que conservam o gosto pelas coisas tradicionais. Uma tapeçaria de lã de ovelha churra pode transformar-se numa peça de arte, desde que haja talento para a fazer. A matéria-prima é escassa, mas a fiadeira Robinson recuperou a tecelagem e, contrariando o ditado popular segundo o qual "o segredo é a alma do negócio", dedicou-se também a ensinar. Assim, preparou um "kit" para principiantes contendo um pouco de lã, apetrechos e um folheto de instruções, para que quem tenha mãos habilidosas possa enveredar pelos caminhos da tapeçaria.

As vantagens desta actividade "são evidentes nas terapias anti-stress, mesmo para quem acha que não tem jeito para fiar", descreve. O lugar onde habita ajuda a compreender melhor a sua forma de vida. A casa, situada na encosta do barrocal algarvio, em Vale de Carvalho, insere-se num ambiente bucólico, em sintonia com formas simples de viver.

A experiéncia e os conhecimentos adquiridos na arte de fiar e tecer levaram também Robinson a publicar o livro "Ponto Trancado com Lã de Arraiolos". O ponto trancado, explica, foi muito popular na Grã-Bretanha nos anos 20, sendo também usado na Austrália. Em Portugal, Gudrun passou a usar essa técnica nos tradicionais tapetes de Arraiolos, "com resultados extraordinários, em termos de qualidade e estética".

As Feiras da Serra e as exposições nas galerias municipais são os locais onde mostra o seu artesanato. E lamenta "não existir ainda certificação, para garantir a qualidade" dos trabalhos em lã de ovelha churra.

 

Artigo no Público, 5 de Janeiro de 2003.

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